domingo, 22 de junho de 2014

Os Beatles e a Filosofia

Trata-se de uma crítica do livro The Beatles and Philosophy, e foi feita no ano de 2012, quando ainda cursava comunicação social na faculdade. Espero que gostem, melhor livro que já li.


Por que escrever um livro de filosofia sobre os Beatles, já que os próprios não se consideravam filósofos? O fato é, que a partir do momento que se define esse questionamento, já podemos considerar os Beatles um tema filosófico.

O início do Beatles me fez pensar que os cantores ou as bandas de sertanejo universitário tem concerto. Músicas sem muito sentido e com assuntos clichês, esse era (como o sertanejo universitário de hoje), o repertório da banda dos anos de 1960.

Com o passar dos anos eles começaram a mudar seus conceitos e refletir o seu papel na sociedade. Usar sua música para falar sobre, questões políticas, sociais e filosóficas. Discussões sobre a natureza e o valor do conhecimento.

Foram preciso vinte estudiosos de filosofia para mostrar o sentido crítico que as obras dos garotos de Liverpool Inglaterra, queriam trazer à sociedade. Vê-se logo na primeira música citada pelo autor como ponto de discussão, “WithinYou, WithinYou”, onde falam sobre as pessoas que se escondem atrás de ilusões e não vêem a verdade. As limitações dos sentidos e como o conhecimento empírico pode nos enganar com nossos sentidos.

O ceticismo é uma das defesas do Beatles, isto visto na música “Nowhere Man”, onde acreditavam que é preciso ser cético, afinal, nos aliarmos a um ídolo pode nos trazer decepção, já que o ídolo é uma pessoa normal também sujeito a falhas, isso é o que diz Michael Baur, no subtítulo O Problema com os Gurus”. Para os Beatles seguir algum guru era forma de tirar o peso que vem da falta de decisão sobre no que acreditar.

O livro é dividido em tópicos envolvendo letras de músicas com pensamentos filosóficos, tornando assim a compreensão bem mais fácil.

Sobre a ética, os quatro músicos tinha uma opinião que envolvia as crenças e o respeito a todo e qualquer tipo de raça e etnia. Eles não tinham interesse de serem filósofos, mas mesmo assim pregavam que suas músicas deviam ser refletidas da maneira que cada pessoa podia, à luz da filosofia e suas teorias.

As discussões sobre cultura popular eram também constantes nas letras dos Beatles, como a natureza das coisas e a mental e espiritual. Nesse ponto o autor traz à tona as discussão de teorias do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel, sobre consciência observadora e observada. De modo simples a observadora vê tudo de forma filosófica e consegue explica-la, enquanto a observada pode até ver as coisas, mas não tem condições de explicar por não ter o conhecimento.

O autor dedica as cinco ou seis ultimas páginas do primeiro capitulo, para talvez a discussão mais profunda e complexa do livro, correndo o risco de ser chato, mas como quem começa a ler um livro de filosofia já sabe, o início é um prenúncio, de que a questão ainda vai ter um desdobramento maior.

Amor, palavra que pelo menos nas primeiras 80 páginas permeia com muita força a dissertação. Amor é para os músicos um elo com amigos ou mesmo com a humanidade, não apenas a simples paixão. Amor onde todos precisamos uns dos outros de uma maneira útil e não parasitária. Para a sociedade anglo-americana esses pensamentos sobre o amor eram utópicos.

Novamente as teorias de Hegel, aparecem no tópico sobre amor e reconhecimento, quando se fala em alcançar a grandeza por meio da união, e relacionamento com o próximo. O exemplo citado no livro é de que, quando começaram e até serem reconhecidos, todos juntos eles são os Beatles, mas sozinhos não eram ninguém. 

Hegel dizia que colocar uma pessoa em nossas vidas implica em ter igualdade de poderes, para que seja mesmo um ser humano vivo e esse, estar vivo, significa pra ele liberdade, que é a essência do amor. Atos arbitrários não são atos de liberdade, pois, no momento estamos dependentes de um desejo de dar conteúdo à nossa vontade, logo, estamos presos a alguma coisa.

Para entender a concepção de amor de Paul McCartney, o autor Robert Arp, propõe analisar as concepções de figuras da filosofia oriental. Partindo do princípio do amor passional, ele cita o deus grego EROS, o qual tinha grande poder sobre os mortais, induzindo-os a mentir, roubar e matar por exemplo. 

Também traz a concepção de amor dos gregos como amor filial, que é a beleza e bondade das pessoas, conceito encontrado no amor platônico, definição feita por Platão, para esse sentimento.

Fazem parte a essa altura desta discussão, vários outros autores como, Aristóteles e Empédocles, todos de um modo geral, chegam a conclusão que o amor “move o mundo”, assim para Paul, o amor é uma forma cósmica e unificadora.

A ética e virtude estão presentes na vida dos Beatles. Em mais uma comparação entre conceitos de virtude e as músicas dos deles, o autor mostra que retratam uma crítica sobre justiça, ética e moral impostas por padrões de sociedade. As canções mostram uma realidade de vários tipos de justiça injusta, críticas que passavam até pelo sistema de cobrança de impostos da própria Inglaterra. Se hoje uma crítica ao sistema é repudiada, imagine naquela época.

Os cantores ilustram em suas músicas várias virtudes aristotélicas, sendo elas, liberdade, orgulho, modéstia, bom temperamento, justiça e humor. Com certo cuidado os Beatles reconheciam que tinham uma parte feminina em suas entranhas, eram diferentes e precisavam de uma “válvula de escape”, para o sentimento ingênuo, sentimento de contato e afeto com outras pessoas. Suas conclusões sobre sensações que tinham mostram que eram calorosos elos sociais.

A crítica era contra a música ruim dos anos de 1960, mas serve como uma luva para a música dos dias de hoje. Criticar a ética do cuidar e os sentimentos femininos ficam claros quando, o autor destaca o subtítulo “Carregue esse Peso”, onde amparado pelas palavras do filósofo Jean Jacques Rousseau, diz que a mulher quando busca metas que não o bem estar da família somente, perde suas qualidades de um ser desejável.

A cultura consumista é outra crítica dos Beatles, mas, antes que alguns pensem que eles eram contrários a ter dinheiro, é importante que se diga que não, eles defendiam ser ricos, afinal só assim conseguiram chegar onde chegaram, mas eram sinceros quando diziam que amor e diversão não tem preço.

O filósofo mais citado nas discussões sobre amor, que existiam nas músicas dos Beatles, é Rousseau, ele sempre definia suas teorias filosóficas baseado no amor ou na união entre as pessoas, mesmo quando eram assuntos de estado.

A homogeneização do mercado artístico, faz com que se desencadeie uma discussão que reflete, até onde os artistas devem se deixar levar pelo mercado capitalista. Rousseau, diferencia humanos de porcos, por exemplo, que são animais que não conseguem escolher o que fazer enquanto, nós seres humanos temos esse “poder”.

O fim de cada capítulo até aqui, é meio irônico, pois sempre trata de pontos de vista dos filósofos como sendo utópicos ao modelo social já existente.

A reorganização social percebida nas músicas dos Beatles, assim como em suas atitudes, são oriundas também das leituras sobre Karl Marx. Para esse filósofo os próprios Beatles faziam parte do mercado capitalista, contudo, dizia que “tornar-se rico no sistema, não implicaria em abraçar a mentalidade”.

Ser autêntico é uma luta quando se trata do mercado consumista e quando ganhamos muitas coisas acabamos perdendo a autenticidade. Tornamo-nos pessoas sem um lugar na sociedade, ou talvez pessoa com muitos lugares, mas sem nenhuma naturalidade.

Paul McCartney, John Lennon, e Ringo, são marcados em suas vidas pessoais por tragédias na infância, mas George Harrison, não tinha a mesma história, afinal ele teve uma infância feliz. O fato de ter sido diferente dos outros três lhe causava constantes reflexões.

George foi quem apresentou a índia aos Beatles, e o que lá no começo dissemos sobre não acreditar em gurus e ser céticos, agora volta à torna com os próprios Beatles como gurus. Para muitas pessoas ainda é difícil de tornar um ídolo, uma pessoa que usa drogas para entender o mundo e se libertar de pré-conceitos.

Enfim aqui chegamos à explicação para o uso das drogas entre os quatro músicos. Esse interesse surge quando os Beatles começam a ler livros sobre a cultura da índia, cultura e filosofia oriental. Lá estão relatos de pessoas que usam esses entorpecentes e tem revelações incríveis sobre a vida social, eles queriam o mesmo, podemos dizer então que até certo ponto eles tinham um motivo plausível, para usarem.

O livro transcende a história de uma banda de rock, ele traz o contexto social aplicado, já que para que possamos nos interessar pela essência e por discussões sociais, precisamos sempre de uma referência.

Os motivos, razões e circunstâncias de seus álbuns, eram definidos por seus estados de consciência. E como julgar a normalidade de suas consciências se suas funções eram melhores do que se estivessem sóbrios? A forma ética era mais ética do que no seu estado normal.

Formaram uma consciência crítica e isso é o que os diferenciou e diferencia, de outras bandas. O estado normal é imoral e irracional por estar preso ao estado.  Seus versos são fontes para discussões filosóficas para quem realmente vê e não somente enxerga. 

Não bastassem suas convicções e resoluções já descritas, o autor incorpora à discussão, um texto sobre ideias de Nietzsche. Duas palavras dos Beatles são o suficiente para comparar as opiniões sobre a paralisia intelectual com o Nietzsche.


A compreensão sobre a visão que temos do mundo nos faz entender e não cair nos buracos da vida. Parece que solucionar o problema não é a solução, por que ali, acabaria o desejo pela crítica e pelo questionamento.

Livro com noções do social, e de como é preciso se despir, mas não esquecer os conceitos adquiridos empiricamente, para poder entender o contexto social. Além de trazer nas ultimas páginas a discografia completa da banda

Ficha técnica
Titulo original – “The Beatles and Philosophy” (Os Beatles e a Filosofia)
Autor – Michael Baur e Steven Baur
Editora – Madras
Ano – 2007
Quantidade de paginas – 285
Valor médio de comercialização – R$27,90

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