Trata-se de uma crítica do
livro The Beatles and Philosophy, e foi feita no ano de 2012, quando ainda
cursava comunicação social na faculdade. Espero que gostem, melhor livro que já
li.
Por que escrever um livro de
filosofia sobre os Beatles, já que os próprios não se consideravam filósofos? O
fato é, que a partir do momento que se define esse questionamento, já podemos
considerar os Beatles um tema filosófico.
O início do Beatles me fez
pensar que os cantores ou as bandas de sertanejo universitário tem concerto.
Músicas sem muito sentido e com assuntos clichês, esse era (como o sertanejo
universitário de hoje), o repertório da banda dos anos de 1960.
Com o passar dos anos eles
começaram a mudar seus conceitos e refletir o seu papel na sociedade. Usar sua
música para falar sobre, questões políticas, sociais e filosóficas. Discussões
sobre a natureza e o valor do conhecimento.
Foram preciso vinte
estudiosos de filosofia para mostrar o sentido crítico que as obras dos garotos
de Liverpool Inglaterra, queriam trazer à sociedade. Vê-se logo na primeira
música citada pelo autor como ponto de discussão, “WithinYou, WithinYou”, onde
falam sobre as pessoas que se escondem atrás de ilusões e não vêem a verdade.
As limitações dos sentidos e como o conhecimento empírico pode nos enganar com
nossos sentidos.
O ceticismo é uma das defesas
do Beatles, isto visto na música “Nowhere Man”, onde acreditavam que é preciso
ser cético, afinal, nos aliarmos a um ídolo pode nos trazer decepção, já que o
ídolo é uma pessoa normal também sujeito a falhas, isso é o que diz Michael
Baur, no subtítulo O Problema com os Gurus”. Para os Beatles seguir algum guru
era forma de tirar o peso que vem da falta de decisão sobre no que acreditar.
O livro é dividido em tópicos
envolvendo letras de músicas com pensamentos filosóficos, tornando assim a
compreensão bem mais fácil.
Sobre a ética, os quatro
músicos tinha uma opinião que envolvia as crenças e o respeito a todo e qualquer
tipo de raça e etnia. Eles não tinham interesse de serem filósofos, mas mesmo
assim pregavam que suas músicas deviam ser refletidas da maneira que cada
pessoa podia, à luz da filosofia e suas teorias.
As discussões sobre cultura
popular eram também constantes nas letras dos Beatles, como a natureza das
coisas e a mental e espiritual. Nesse ponto o autor traz à tona as discussão de
teorias do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel, sobre consciência observadora e
observada. De modo simples a observadora vê tudo de forma filosófica e consegue
explica-la, enquanto a observada pode até ver as coisas, mas não tem condições
de explicar por não ter o conhecimento.
O autor dedica as cinco ou
seis ultimas páginas do primeiro capitulo, para talvez a discussão mais
profunda e complexa do livro, correndo o risco de ser chato, mas como quem
começa a ler um livro de filosofia já sabe, o início é um prenúncio, de que a
questão ainda vai ter um desdobramento maior.
Amor, palavra que pelo menos
nas primeiras 80 páginas permeia com muita força a dissertação. Amor é para os
músicos um elo com amigos ou mesmo com a humanidade, não apenas a simples
paixão. Amor onde todos precisamos uns dos outros de uma maneira útil e não
parasitária. Para a sociedade anglo-americana esses pensamentos sobre o amor
eram utópicos.
Novamente as teorias de Hegel,
aparecem no tópico sobre amor e reconhecimento, quando se fala em alcançar a
grandeza por meio da união, e relacionamento com o próximo. O exemplo citado no
livro é de que, quando começaram e até serem reconhecidos, todos juntos eles
são os Beatles, mas sozinhos não eram ninguém.
Hegel dizia que colocar uma
pessoa em nossas vidas implica em ter igualdade de poderes, para que seja mesmo
um ser humano vivo e esse, estar vivo, significa pra ele liberdade, que é a
essência do amor. Atos arbitrários não são atos de liberdade, pois, no momento
estamos dependentes de um desejo de dar conteúdo à nossa vontade, logo, estamos
presos a alguma coisa.
Para entender a concepção de
amor de Paul McCartney, o autor Robert Arp, propõe analisar as concepções de
figuras da filosofia oriental. Partindo do princípio do amor passional, ele
cita o deus grego EROS, o qual tinha grande poder sobre os mortais, induzindo-os
a mentir, roubar e matar por exemplo.
Também traz a concepção de amor dos
gregos como amor filial, que é a beleza e bondade das pessoas, conceito
encontrado no amor platônico, definição feita por Platão, para esse sentimento.
Fazem parte a essa altura
desta discussão, vários outros autores como, Aristóteles e Empédocles, todos de
um modo geral, chegam a conclusão que o amor “move o mundo”, assim para Paul, o
amor é uma forma cósmica e unificadora.
A ética e virtude estão
presentes na vida dos Beatles. Em mais uma comparação entre conceitos de virtude
e as músicas dos deles, o autor mostra que retratam uma crítica sobre justiça,
ética e moral impostas por padrões de sociedade. As canções mostram uma
realidade de vários tipos de justiça injusta, críticas que passavam até pelo
sistema de cobrança de impostos da própria Inglaterra. Se hoje uma crítica ao
sistema é repudiada, imagine naquela época.
Os cantores ilustram em suas
músicas várias virtudes aristotélicas, sendo elas, liberdade, orgulho,
modéstia, bom temperamento, justiça e humor. Com certo cuidado os Beatles
reconheciam que tinham uma parte feminina em suas entranhas, eram diferentes e
precisavam de uma “válvula de escape”, para o sentimento ingênuo, sentimento de
contato e afeto com outras pessoas. Suas conclusões sobre sensações que tinham
mostram que eram calorosos elos sociais.
A crítica era contra a música
ruim dos anos de 1960, mas serve como uma luva para a música dos dias de hoje.
Criticar a ética do cuidar e os sentimentos femininos ficam claros quando, o autor
destaca o subtítulo “Carregue esse Peso”, onde amparado pelas palavras do
filósofo Jean Jacques Rousseau, diz que a mulher quando busca metas que não o
bem estar da família somente, perde suas qualidades de um ser desejável.
A cultura consumista é outra
crítica dos Beatles, mas, antes que alguns pensem que eles eram contrários a
ter dinheiro, é importante que se diga que não, eles defendiam ser ricos,
afinal só assim conseguiram chegar onde chegaram, mas eram sinceros quando
diziam que amor e diversão não tem preço.
O filósofo mais citado nas
discussões sobre amor, que existiam nas músicas dos Beatles, é Rousseau, ele
sempre definia suas teorias filosóficas baseado no amor ou na união entre as
pessoas, mesmo quando eram assuntos de estado.
A homogeneização do mercado
artístico, faz com que se desencadeie uma discussão que reflete, até onde os
artistas devem se deixar levar pelo mercado capitalista. Rousseau, diferencia
humanos de porcos, por exemplo, que são animais que não conseguem escolher o
que fazer enquanto, nós seres humanos temos esse “poder”.
O fim de cada capítulo até
aqui, é meio irônico, pois sempre trata de pontos de vista dos filósofos como
sendo utópicos ao modelo social já existente.
A reorganização social
percebida nas músicas dos Beatles, assim como em suas atitudes, são oriundas
também das leituras sobre Karl Marx. Para esse filósofo os próprios Beatles
faziam parte do mercado capitalista, contudo, dizia que “tornar-se rico no
sistema, não implicaria em abraçar a mentalidade”.
Ser autêntico é uma luta
quando se trata do mercado consumista e quando ganhamos muitas coisas acabamos
perdendo a autenticidade. Tornamo-nos pessoas sem um lugar na sociedade, ou
talvez pessoa com muitos lugares, mas sem nenhuma naturalidade.
Paul McCartney, John Lennon,
e Ringo, são marcados em suas vidas pessoais por tragédias na infância, mas
George Harrison, não tinha a mesma história, afinal ele teve uma infância
feliz. O fato de ter sido diferente dos outros três lhe causava constantes
reflexões.
George foi quem apresentou a
índia aos Beatles, e o que lá no começo dissemos sobre não acreditar em gurus e
ser céticos, agora volta à torna com os próprios Beatles como gurus. Para
muitas pessoas ainda é difícil de tornar um ídolo, uma pessoa que usa drogas
para entender o mundo e se libertar de pré-conceitos.
Enfim aqui chegamos à
explicação para o uso das drogas entre os quatro músicos. Esse interesse surge
quando os Beatles começam a ler livros sobre a cultura da índia, cultura e
filosofia oriental. Lá estão relatos de pessoas que usam esses entorpecentes e
tem revelações incríveis sobre a vida social, eles queriam o mesmo, podemos
dizer então que até certo ponto eles tinham um motivo plausível, para usarem.
O livro transcende a história
de uma banda de rock, ele traz o contexto social aplicado, já que para que
possamos nos interessar pela essência e por discussões sociais, precisamos
sempre de uma referência.
Os motivos, razões e
circunstâncias de seus álbuns, eram definidos por seus estados de consciência.
E como julgar a normalidade de suas consciências se suas funções eram melhores
do que se estivessem sóbrios? A forma ética era mais ética do que no seu estado
normal.
Formaram uma consciência
crítica e isso é o que os diferenciou e diferencia, de outras bandas. O estado
normal é imoral e irracional por estar preso ao estado. Seus versos são
fontes para discussões filosóficas para quem realmente vê e não somente
enxerga.
Não bastassem suas convicções e resoluções já descritas, o autor
incorpora à discussão, um texto sobre ideias de Nietzsche. Duas palavras dos
Beatles são o suficiente para comparar as opiniões sobre a paralisia
intelectual com o Nietzsche.
A compreensão sobre a visão
que temos do mundo nos faz entender e não cair nos buracos da vida. Parece que
solucionar o problema não é a solução, por que ali, acabaria o desejo pela
crítica e pelo questionamento.
Livro com noções do social, e
de como é preciso se despir, mas não esquecer os conceitos adquiridos
empiricamente, para poder entender o contexto social. Além de trazer nas
ultimas páginas a discografia completa da banda
Ficha técnica
Titulo original – “The
Beatles and Philosophy” (Os Beatles e a Filosofia)
Autor – Michael Baur e Steven
Baur
Editora – Madras
Ano – 2007
Quantidade de paginas – 285
Valor médio de
comercialização – R$27,90

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